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Artigo: O IMPACTO DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA NA SOCIEDADE

 

Artigo


O IMPACTO DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA NA SOCIEDADE


Por Marcia Neves Santiago - Conselheira e Diretora-geral do Núcleo das Mulheres Vítimas da Violência Doméstica da OAB Niterói



 Em respeito ao Dia Internacional da Não-Violência Contra a Mulher instituído e comemorado anualmente em 25 de novembro, ainda temos muito a fazer e falar sobre o assunto. A data tem o objetivo de alertar a sociedade sobre os casos de violência e maus-tratos contra as mulheres.


A violência física, psicológica e o assédio sexual são alguns exemplos  desses  maus-tratos. De acordo com as estatísticas, uma em cada três mulheres sofre de violência doméstica, que é uma questão social e de saúde pública, não distingue cor, classe econômica ou social, está presente em todo o mundo.


 Não à toa, o país tem uma taxa de feminicídio de 4,8 homicídios por cada 100 mil mulheres. Essa é, conforme estatística da Organização Mundial da Saúde (OMS), a quinta maior do mundo.


 Como consequência, não podemos deixar de acompanhar o impacto que ela traz para a sociedade como um todo. Uma pesquisa inédita feita pela Universidade Federal do Ceará em parceria com o Instituto Maria da Penha mostra os impactos da violência doméstica na vida profissional das mulheres.


As mulheres vítimas de violência doméstica chegam a faltar ao trabalho dezoito dias por ano por incapacidade física e psicológica ou para realizar tratamentos. Além disso, a violência gera desemprego, algumas mulheres desistem da profissão em função dos maus-tratos, por vergonha de aparecer em público, tamanha a brutalidade dos seus agressores, ou mesmo porque perdem a motivação e a autoestima.


 E os impactos dessa ação são muito mais profundos do que se imagina. A violência contra a mulher traz consequências negativas no âmbito social, já que é possível distinguir uma mulher que sofre violência pelo modo como ela se comporta.


Muitas vítimas relatam que têm dificuldades para trabalhar, de ter uma relação de amizade, não conseguem sorrir com tanta frequência, e isso só corrobora em nos mostrar as dificuldades que essas mulheres terão em se relacionar numa sociedade.


 As consequências são tão fortes que chegam a afetar toda a família. As crianças sofrem violência quando as mães sofrem violência. Elas podem não apanhar, mas estão vendo as mães sofrerem. Muitas delas voltam a fazer xixi na cama, têm dificuldade de se desenvolver na escola, tornam-se agressivas, querem fugir de casa, e isso a longo prazo elimina uma sociedade inteira, uma vez que essas crianças serão o futuro da nação.


 A lógica não é muito difícil de ser entendida. Vejam, se uma criança cresce em um ambiente hostil, vendo sua mãe ser violentada, assimilará esse tipo de comportamento e muito provavelmente será um adulto violento, e o ciclo não é interrompido, pelo contrário, ele continuará existindo. Percebem a gravidade da questão?


 A Lei Maria da Penha trouxe para a Justiça brasileira avanços que ampliaram o leque de situações em que se pode identificar e provar esse tipo de violência. A Lei do Feminicídio, mais recente, veio complementar e qualificar o crime de homicídio de mulheres em razão do gênero. Mas apesar de ser considerada a terceira melhor legislação no enfrentamento à violência contra a mulher, ainda tem o desafio de ser implementada na prática em sua integralidade.


 Acredito que programas de valorização da mulher, incentivo à autonomia financeira e iniciativas de formação cidadã, levando o projeto "Lei Maria da Penha nas escolas", são exemplos de como o Brasil pode virar a página e romper o estigma da cultura de violência contra as mulheres.


(Marcia Neves Santiago é advogada, Conselheira e Diretora-geral do Núcleo das Mulheres Vítimas da Violência Doméstica da OAB de Niterói). 


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